terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

CLARIVIDÊNCIA



se escrevo é porque não sou indiferente
sinto pressinto guardo comigo
o que a palavra não consegue expressar


mas o amor acontece expressamente
nos cinco sentidos físicos
na intuição e na clarividência


um dia desaparecerei
ninguém mais vai me ver
desolados poucos ficarão
e naturalmente logo esquecerão


seja como for ainda estou aqui
na forma que fisicamente sou
naturalmente como me vejo
e sei que existo


dos amores que tive
restará saudade
dos inimigos que alimentei
cuidará a eternidade


Rio, fevereiro de 2012.






TESTAMENTO



dura porque tem de durar
acaba quando tiver de acabar
ao longe vejo um navio no mar
e gaivotas que o seguem atrás


sei que um dia passarei além
e nada mais fará sentido
exceto que razão não há
para me despedir


voarei o voo longo de não mais voltar
mas a lembrança do que deixo
ficará no mar


Rio, fevereiro de 2012.



IMPROMPTUS DE CARNAVAL


sei o que penso mas não é uma ideia minha
sei o que quero mas vou onde Maria queira
sei quem sou mas às vezes acho-me estranho

sei quando é dia mas confundo-o com a noite
sei que é noite mas sonho com o dia
sei tanta coisa mas nem todas sei
sei que tudo acontece concretamente
mas vivo abstratamente
alguém que é e não é
porque embora viva muito bem
às vezes sinto-me mal
sou eu e meu oposto
eu e o outro
o outro sou eu
e desço o rio da vida que muitas vezes é mar

Rio fevereiro de 2012.





segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A SENSIBILIDADE DO OUTRO



se os homens fossem perceptivos e sensíveis
talvez não houvesse capítulos de incompreensão
na história do mundo


não há quem sobreviva sem dano ao mistério 
de desconhecer o que é pedra
e de não sentir a alma


o homem-pedra centra-se na imobilidade
e não pensa
o que existe além dele não existe


e ninguém sente o que a alma não registra
nem conhece a própria alma
vegeta


o outro é o inferno dizia Sartre
ignorando o demônio dentro de si
e o fogo a queimar-lhe o coração


perceber menos sentir menos
será esse o destino dos homens
ou da natureza imperfeita


ou sentir mais é reconhecer no outro
uma cópia de si mesmo
e respeitar 


valemos pelo que somos
viver é ser
e o ser existe no entendimento


nasci para ensinar e ensinando vivo
entendi que respeitar é parte de mim mesmo
e que o respeito constrói


entretanto



de que adianta ensinar
quando a sensibilidade entorpecida
ignora o outro



Rio, fevereiro de 2012.




domingo, 19 de fevereiro de 2012

RACIONALIDADE E POESIA



leio um poema em cada vida
em cada vida ensaio um poema
e dos olhos do poeta
a poesia vem para as mãos
incapazes de sentir
pois que pensam


racionais


que posso senão mentir
ou certamente fingir
dos olhos fazer coração
acelerado no peito
refrigerado nas mãos


quantos sentimentos senti
tantas vezes fingi


Rio, fevereiro de 2012.








SENTIMENTO/PENSAMENTO



o pensamento é o que penso
do sentimento que sinto
mas o abstrato de pensar
em nada impede meu sentir
ainda que jamais consiga em palavras 
transmitir
o que sinto
que palavras são pensamento
fingindo ser sentimento




Rio, fevereiro de 2012.




sábado, 18 de fevereiro de 2012

CARNAVAL E METAFÍSICA



todos passam sob minha janela
o arlequim o palhaço e a donzela
tipo raro no espaço destas ruas
no tempo dessa bacanal


desde Eva mulher era mulher
de um homem traindo-o com outro
da janela vejo essa donzela 
de todos traindo-os com um


os homens continuam machos
são ainda hoje viris
mas exibem o que se sabia
mesmo antes de acontecer


ninguém tem pai nem mãe
nem os acompanham irmãos
gozam intensamente existir
e se amam amando-se em comum


os ruídos que me vêm dessa janela
são ruídos trocados no silêncio
dos pares que os sufocam
nos orgasmos da solidão


não há erro nem condenação
nada me adianta prever
o que matematicamente não sei
nem somar nem dividir para saber



nessa dança ritmada e rebelde 
passam todos no universo diverso 
que se move no carnaval 
metafísica é minha evasão



Rio, fevereiro [carnaval] de 2012.