"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
quinta-feira, 13 de março de 2014
GAIVOTAS ILHAS
é sonho ainda quando o amanhecer dourado
destaca o verde recobrindo a pedra
diante de meus olhos
ilhas
o mar azul as cerca de grisalhas cristas
à distância sonolento desperto
com a visão de velas brancas
gaivotas
em Ipanema é dia
Rio, março de 2014.
PEDRAS
meus olhos estão cegos de tanto ver
o deserto de pedras
onde está a cerca a definir limites
sinto a suavidade de teu olhar
que pode ver o infinito
e revelar que sonhas
só há mistério onde não há sentido
a distância que nos separa no tempo é o limite
o sensível tornado insensível
em tuas pupilas fotográficas
quanto te olho e não posso sentir teus sonhos
só o deserto de pedras reflete o que vejo
e sobrevém o suspiro
lacrimosamente
Rio, março de 2014.
quarta-feira, 12 de março de 2014
CICLO
passo a porta do tempo
esqueço meus sonhos
encerro a memória dos fatos
e não me conduzo
deixo-me ir
penso nisso e em suas circunstâncias
não sei se compreendo
é só um mundo novo
valerá a pena vivê-lo
e trabalhá-lo como um jardineiro com as plantas
semear fazê-las vingar
se esqueço meus sonhos
crio novos
e a lua brilhará
refletindo a luz do sol
depois de deixar sua órbita e voltar
tudo novo
tudo por explorar
na permanente reconstrução
em seu ciclo universal
Rio, março de 2014.
sexta-feira, 7 de março de 2014
A PEDRA E O TEMPO
o que sente a pedra sobre o tempo
presente passado futuro
perplexa
enquanto nosso tempo passa
e neuroticamente o medimos
segundos minutos horas
numa só e inútil ilusão
assim admirando a pedra
fico
o meu tempo é um compacto pétreo de tempo
desestimula como sonho o futuro
funde fatos do passado
e se esse é o nome do jogo
é presente
São Paulo março de 2014.
quinta-feira, 6 de março de 2014
VIDA
amo a janela que se abriu há setenta e tres anos
loucamente sorvi o sabor e o perfume do que vi
sei que é longo e que o tempo corre
mas ainda vivo a alegria de existir
São Paulo, março de 2014
sábado, 1 de março de 2014
POEMA INÚTIL
um dia qualquer numa manhã qualquer
um longo rio há de chegar a sua foz
terá sido a realização do mistério da vida
um segredo da natureza
tais que a árvore o monte a planície de que fala Pessoa [Caieiro]
"let's go home" dirá quem me virá buscar
porque escrevo na inútil tentativa de ultrapassar esse momento
e deixar algumas palavras por vezes preenchendo idéias
para uma posteridade ambiciosa mas perplexa
porque não poderá ser verificada
a casa que me está reservada terá um só cubículo
dificilmente habitável
mas destinado a quem viveu ilusões
e doravante não poderá ultrapassar
as quatro paredes sem janelas
de onde não verá o dia nem a noite
só o tempo
que não se medirá
hoje falo comigo também
na penúltima esperança de ver o outro lado
a margem esquerda
mas ninguém se importa com o desaparecimento
da minha frágil e tentativa ponte
entre duas margens das quais uma só conheço
desse rio que seguirá seu caminho
tarde atribuí-me essa tarefa
como quem constrói essa ponte
entre hoje e amanhã
mas não haverá amanhã exceto para muitos
que não se interessarão pelo que escrevi
a ponte incompleta cairá em ruínas
o rio chegará à foz envolvido pelas águas de outros rios
desconhecidos rios frígidas águas
claras ou poluídas
e o caudaloso rio de outras vidas
ocupará o vazio
Rio, fevereiro de 2014.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
SEREIA
sempre esperei uma sereia
na pedra do Arpoador
viria do mar, esguia, olhos azuis
não há razão que impeça uma sereia de vir
a brisa do sudoeste às vezes é vento
a brisa é úmida e o vento seco
se a natureza fosse perfeita
uma sereia não seria uma metáfora
mas parte do mundo natural
anos atrás eu pensei ver uma sereia
golfinhos quando as ondas grisalhas chegavam à praia
e eles traziam alegria
mas nenhum deles tinha a beleza de minha metáfora
e eu continuo à beira mar
junto das pedras
escrevendo minha canção de amor
apaixonadamente
Rio, fevereiro de 2014.
na pedra do Arpoador
viria do mar, esguia, olhos azuis
não há razão que impeça uma sereia de vir
a brisa do sudoeste às vezes é vento
a brisa é úmida e o vento seco
se a natureza fosse perfeita
uma sereia não seria uma metáfora
mas parte do mundo natural
anos atrás eu pensei ver uma sereia
golfinhos quando as ondas grisalhas chegavam à praia
e eles traziam alegria
mas nenhum deles tinha a beleza de minha metáfora
e eu continuo à beira mar
junto das pedras
escrevendo minha canção de amor
apaixonadamente
Rio, fevereiro de 2014.
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