"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
sexta-feira, 23 de maio de 2008
POESIA
também a poesia é filha do mistério
vive de mantras
em que metáfora ritmo ou rima
são orações de um culto pagão
onde a beleza é necessidade
de que o fundamento é o mundo.
Não se espantem com meus conceitos
como o diabo de Pessoa vivo de símbolos
nada devo à ciência nem articulo razões
empenho a alma e talvez o coração
como qualquer poeta que sente com o pensamento
mas não crio
os seres [vários] que trago comigo.
Furto-me ao convencional aristotélico
perco-me na eloquência dos silêncios
que me povoam o pensamento
fustigam-me o sentimento
com aspirações e desejos
fadados a explodir como poema.
Assim o poeta é um velho adolescente
vive de lembranças às vezes tristes
sobre o anoitecer
mas agudiza a memória nas tardes
de muitos sóis
a preceder a suavidade das noites
lugar de todos os sonhos
contraditoriamente
a lhe trazer alegria.
Ora, não sou a verdade
sou o poeta
na tentativa de ver sempre claro
os contrastes [que] são o sal da vida
o amanhecer [que] é cada dia
e cada dia é poesia.
Londres, maio de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
A VOZ DO PAI
de um soneto de Borges
o tempo no passado está presente
como a chuva que é passado quando cai
e cria em seu compasso
nascer e renascer
viver e reviver
assim ouço irrepetível a voz do pai
que sempre esteve e permanece como pedra
em verso incertamente
pedra sobre pedra
na alma na memória na vontade
e em nosso pensamento
certamente
Londres, maio de 2008
domingo, 18 de maio de 2008
a alguém que sentiu minha poesia
Para quem acabo de descobrir para sempre
meu segredo caminha para onde moram os sonhos
e os sonhos aonde terei paz
no que hei de ser
sob a tutela do coração que me cura a alma
o entendimento que me confessa jovem
mais oculto do que mesmo sou.
Londres, 18 de maio de 2008
BRANCO
a nostalgia das folhas que decaem douradas
sob o silêncio e o vento frio
traz o branco
vem a saudade dos anos que se perdem
nas cores mutantes
de instantes que já foram vida
Londres, novembro de 2007.
LUZ DO MUNDO
Se aqui de Londres a razão me serve para esfriar a emoção
e deixar de ser densa alegria
o mundo torna-se sonho do que está em volta
inteiro acima da verdade
na memória sumarento a extrair luz e calor do pouco sol.
Londres, um domingo de março de 2008.
FERNANDO PESSOA
não ha quem não se debruce à janela para admirar os últimos raios do sol
já vermelhos contra o jogo de sombra e luz que reaparecerá em sonho
atravessado pelo segredo deste verso
não ha barreiras nem da ilusão a perturbar-me o olhar
o corpo regressa embebido de vida ao ofício do mundo
consciente de Ser no universo.
Londres metafísica, maio de 2008.
RENASCIMENTO
Esperei o poente para entender crepúsculo, não a escuridão
mas momento em que a luz deixou de ofuscar
para ser mistério de compreender a eucaristia
de meu corpo e sangue como vida
não abdiquei da luz mas a mudei de lugar intimamente
para fazê-la o limiar de outro nascer.
Londres, maio de 2008.
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