"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
sexta-feira, 13 de junho de 2008
ADOLESCÊNCIA
ouço por vezes um rumor adolescente de saudade
e sinto como se o tempo não ventasse
e o vento incessante cessasse
haja outono haja inverno passe o tempo
mas que à véspera de nascer
o canto possa cantar
o primeiro som o primeiro sol
sinto ainda o menino frágil
a mergulhar na vida
sonhador
nesta saudade que me embala
como a folha outonal que desfolha
dourada e preguiçosa
e pousa ...
Londres, junho de 2008.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
SAUDADE [mote]
[glosas]
"Saudade! és a ressonância
de uma cantiga sentida,
que, embalando a nossa infância,
nos segue por toda a vida" [Da Costa e Silva]
ou [uma idéia antiga]
Saudade presença ausente
na memória do coração
ausência de tua presença
alimentando a paixão [Flávio]
ou [talvez à maneira de Vinicius]
A vida não é mais a mesma
não se pode amar sozinho
tristeza de tua ausência
tudo me falta e o carinho
[Flavio]
ou [de novo, tentativamente, Vinícius]
Amei e não tive medo
do coração não fiz segredo
quis fingir ao ver fugir
quem me quis fazer sentir
choro hoje a ausência
de tua doce presença
do que sinto ao dizer
que logo te quero ver
[Flavio]
ou [eu de novo]
Prisioneiro de teu carinho
és parte de meus segredos
prisão de minhas verdades
ansiedades e medos
só te sinto saudade
[Flavio]
ou [quem sabe, à maneira de Pessoa]
Não te entregues não te dês
a quem nem sentes nem vês
é a liberdade da lembrança
que te trará esperança
que a saudade retem
[Flavio]
Ou [à maneira clássica]
Havia de ser saudade
na vossa condição
aqueles olhos verdes
minha inteira perdição
[Flavio]
Ou [ainda com rubores clássicos]
Tormento e perigos sofri
inclinado ao pensamento
daquilo que não cabe em mi
e que podeis vir buscar
no sentimento do amor
que me domina o peito
à lembrança do amado
amor que não tem jeito
senão na alheia saudade
[Flavio]
ou [poemeto inglês]
I sense in your eyes
what senses feel
as lust raging for eternity
missing your sweet soul
I feel miserable
spy
watching on your presence
searching for reasons
loosing my senses
the god of my senses
the sole lover
infinity
not for reality
[Flavio]
terça-feira, 10 de junho de 2008
MANHÃS
Nas manhãs silenciosas de meu verso
a brisa sopra leve o sonho
e o que ouço é rumor diverso
no tecido que em palavras ponho
breve tempo de procura
longos anos sem sentido
o que faço é mera travessura
entre palavras perdido
Londres, junho de 2008.
MEU MAR
Borges sonhava cores no escuro de seus dias
eu sonho palavras e o desejo de encontrá-las
na algibeira da memória recordo fatos
no rumor do coração minhas paixões
às vezes uma difusa sensação
de que despertarei
já escrevi demais
mas sinto na tarde
o impulso irresistível
de dizê-las
a noite chega rápido o entardecer é curto
temo esquecer o que me pareceu eterno
no tempo terreno que se extingue
sei que partirei mas preciso ficar
para usufruir os dias
que nas praias brancas me encantarão
gozo o prazer do passado na imaginação
tão rápido o futuro
ao som das ondas preguiçosas
que se desenrolam nas curvas de meu mar.
Londres, junho de 2008.
sábado, 7 de junho de 2008
67 anos
aos sessenta e sete anos arrisco a ironia
estar morto e imaginar-me vivo
na indolente faina de escrever
palavras ignorando idéias
o outono é a última estação
antes do inverno que congela
de modo silencioso e persistente
ondas da hesitação ora de dúvida
o homem conhece seu destino
e não se lhe opõe nem o nega
pois o poema nesta tarde é vida
mais além de sua pena
Londres, junho de 2008.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
SUDOESTE
julho
o verso não ignora o novo ritmo
e o calor que meu país me incorpora
o imaginado passado reabre-se
para contemplar o futuro
sem as fantasias do sonho
como os astros o futuro flutua
em busca da última estrela
olhos no desígnio dos céus
tudo é secreto
felizmente indecifrável
à beira-mar os ventos do sudoeste
que não me levam ao norte
qualquer verdade será falsa
toda história parte da memória
o desejo mero ensejo
do que certamente não farei
por pura falta de tempo...
Londres, junho de 2008.
SORTE
Tudo milita em favor da vida
menos a morte
que depende da sorte
mas não permite nenhuma sobrevida.
Londres, junho de 2008
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