quarta-feira, 19 de agosto de 2009

NYDIA E FILIPE







ontem
Filipe e Nydia
Nydia e Filipe
gostaram do catavento

é possível um desejo imenso
como quer Camões
arder no peito dentro?

que me diga o vento
quando sonhar
sem que me leve o sonho
a rodopiar

o que me alegra
é que desejo não dura
e eu posso voltar
a ser caradura
nesse suspirar
de versos a indagar

filosófico não é lindo convenci-me
ninguém gosta de filosofar
melhor é sentir
e não mentir
no que é
minha solitária maneira de amar


Rio de Janeiro, agosto de 2009





PRO FILIPE







meus versos não são filosóficos
[como deseja o Filipe]

são um não sei que
vindo do não sei onde

como diz o Drummond seu colega
vêm atucanar-me a cuca

e eu perplexo escrevo
[não sei se devo]
com alegria
cada dia
psico
de não ser lírico

ou

e eu perplexo escrevo
com alegria
[não sei se devo]
triste
de não ser lírico


Rio de Janeiro, agosto de 2009










segunda-feira, 17 de agosto de 2009

CATAVENTO






ah se eu fosse o catavento!
te catava
te punha de frente
e te olhava
depois numa caixa lacrada
te fechava
para não fugires

ah se eu fosse o catavento...


Rio, agosto de 2009.



NADA







só posso crer na existência de um caminho
uma trilha uma senda uma saída
dessa noite desagônica
que chamamos morte

sei que espero segurança
posto que finda a angústia da esperança
sem lembranças
ou janela paralela de tormentos
no eterno esquecimento

com que palavras dizer o que não digo
que música sentir
que montes ou mar para mirar?

estou aqui nada me dói
um instante e tudo são mudanças
da brisa que sopra mar afora
o azul do céu por sobre o monte
tingido do fogo contra o vento
mergulhando fervente no horizonte

ou nada me separa do nada que me espera?


Rio de Janeiro, agosto de 2009.








sábado, 15 de agosto de 2009

UMA OUTRA VIDA






olho à janela ainda não é noite
o vento sudoeste sopra frio

o mar distante diz-me
que contemple o seu mistério

estou só comigo
como barco quase além do horizonte
esqueço
o que sou quem sou
nesse meu tempo de um instante

olho o marejar e as ondas que se vão
algumas partem sem sangrar
outras regressam no eterno movimento de chegar

a consciência vaga cada vaga
o céu azul outrora
queima
os últimos instantes do sol

tive nesse instante a ilusão vivida
mas pouco importa
ainda tenho o céu e o mar

e a pena que tenho merecida
vi-a clara esclarecida
ao voltar à outra vida

Rio, agosto de 2009.




terça-feira, 4 de agosto de 2009

FADO







sei que virás traiçoeira
alheia impessoal
em meio à bruma
cinza e soturna

não me causas náuseas
tudo será natural e calmo
no caminhar que me reservas
à terra de ninguém

tudo sabes do meu fado
mas não perguntarei
disciplinado
seguirei

Rio, julho de 2009



quarta-feira, 29 de julho de 2009

DÚVIDA






no caminho inverso
nem vejo
nem ouço
e angustiadamente
calo
nos meus versos

inútil verdade do que sou
escrevo
sobre o que não sei
se o que vejo não é

Rio, julho de 2009