sexta-feira, 21 de agosto de 2009

AVÔ








eu não supunha as alegrias do avô
a cada dia lembrar
Ana Luiza e Alice que me vêem
como o Amor que regem sem saber

sou eu e não me esqueço
a parte desejada
porque sou quem lhes consente
ser o que são

crianças e vontades
na roda da esperança
de tudo e ilusões

que canto a realizar
tão pronto ouço o pranto
e as vozinhas que suplicam "vô!"

Rio de Janeiro, agosto de 2009




quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O BEIJO E O POEMA






como amantes que se beijam
Jorge de Sena contracenou comigo
no mordiscar excitante do poema

excitantes hesitantes
florescem palavras e despertam frases

poesia é como beijo tudo que do lábio se deseja

um improviso no rastro brilhante de seu canto
suspira na memória genética da recriação

são melodias esquecidas
dormentes
que desembarcam dos sonhos
e voltam a cantar
como o beijo

"...é beijo tudo que de lábios seja
quando de lábios se deseja."



Versos finais de "Beijo", em "Tormentas", do poeta que citei.


Rio de Janeiro, agosto de 2009




quarta-feira, 19 de agosto de 2009

METÁFORA








explicar metalinguagem
é pura sacanagem
da metáfrase erudita
muito bem encadernada
junta Camões ao sutil jogo de cena
do Drummond que contracena
Bandeira e Jorge de Sena

poesia é como beijo
tudo que do lábio se deseja

Rio de Janeiro, agosto de 2009






NYDIA E FILIPE







ontem
Filipe e Nydia
Nydia e Filipe
gostaram do catavento

é possível um desejo imenso
como quer Camões
arder no peito dentro?

que me diga o vento
quando sonhar
sem que me leve o sonho
a rodopiar

o que me alegra
é que desejo não dura
e eu posso voltar
a ser caradura
nesse suspirar
de versos a indagar

filosófico não é lindo convenci-me
ninguém gosta de filosofar
melhor é sentir
e não mentir
no que é
minha solitária maneira de amar


Rio de Janeiro, agosto de 2009





PRO FILIPE







meus versos não são filosóficos
[como deseja o Filipe]

são um não sei que
vindo do não sei onde

como diz o Drummond seu colega
vêm atucanar-me a cuca

e eu perplexo escrevo
[não sei se devo]
com alegria
cada dia
psico
de não ser lírico

ou

e eu perplexo escrevo
com alegria
[não sei se devo]
triste
de não ser lírico


Rio de Janeiro, agosto de 2009










segunda-feira, 17 de agosto de 2009

CATAVENTO






ah se eu fosse o catavento!
te catava
te punha de frente
e te olhava
depois numa caixa lacrada
te fechava
para não fugires

ah se eu fosse o catavento...


Rio, agosto de 2009.



NADA







só posso crer na existência de um caminho
uma trilha uma senda uma saída
dessa noite desagônica
que chamamos morte

sei que espero segurança
posto que finda a angústia da esperança
sem lembranças
ou janela paralela de tormentos
no eterno esquecimento

com que palavras dizer o que não digo
que música sentir
que montes ou mar para mirar?

estou aqui nada me dói
um instante e tudo são mudanças
da brisa que sopra mar afora
o azul do céu por sobre o monte
tingido do fogo contra o vento
mergulhando fervente no horizonte

ou nada me separa do nada que me espera?


Rio de Janeiro, agosto de 2009.