sábado, 7 de abril de 2012

À LUZ DO DIA





foi-se a noite 
e todos os segredos
ofuscados
pela luz do dia


foram-se
o medo da sorte
fantasmas da mente
pesadelos inconsequentes


sombras e vultos
foram-se covardemente
ao brilhar a aurora


voa agora a alegria nas asas da poesia
é pleno dia




Rio, abril de 2012.




POENTE



nada de novo há
nada
exceto a beleza recobrada
do por do sol
em um poente cada dia


olhos postos no astro em fogo
e o pensamento no eterno esquecimento


Rio, abril de 2012.




sexta-feira, 30 de março de 2012

AMOR SENIL



no ritmo romântico de outros tempos
eu bem queria
ter vinte anos novamente
e viver intensamente


de que vale ser poeta aos setenta anos
e cantar um amor intenso e decadente
para a morte pilhar-me de repente
e desamparar a quem amei


por uns tempos só
para que volte a amar um vagabundo


basta o que sou errando neste mundo
quebrei os sonhos do passado
deixei minha alma em um dos escaninhos
onde se esconde o esquecimento


sinto o presente como o futuro não sonhado
muito mais verdadeiro que a vida


não tenho cura nem cura quero
deixem-me viver os últimos suspiros
do amor que tenho
ainda que poeta e sonhador


não me maldigam estou livre
nesta orgia sem fim do fim de vida
quando todo o encanto se evapora
e fico só à beira do caminho


Rio, março de 2012.









quarta-feira, 28 de março de 2012

ROMÂNTICO ADOLESCENTE



atrevido citei de um poeta
vinte e um anos e a vida toda
a beleza a ler em versos únicos
o amor em cânticos cantado


assim à beira de meus versos
encontrei o fundo pretendido
não morrer mas viver de amores
dores e sentimentos imperfeitos


que amar amei e amei tanto
que suspirando ainda acordo cada dia
no sonho do desmaio apaixonado 


sem querer nele revelei minh'alma
velho inveterado
romântico adolescente toda a vida


[relendo Álvares de Azevedo, 
um menino ao partir apaixonado]


Rio, março de 2012.



TRECHOS - Álvares de Azevedo



Se ele poeta nodoou seus lábios...
é que fervia um coração de fogo
e da matéria a convulsão impura
a voz do coração emudecia!


O Fantasma


Sou o sonho de tua esperança,
tua febre que nunca descansa, 
o delírio que te há de matar


Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
e se te fujo é que te adoro louco...
És bela -- eu moço; tens amor  -- eu medo!...


Não serei triste se te ouvir a fala
Tremo e palpito como treme o mar...


...ser no mesmo ponto
O ditoso e o misérrimo dos entes
Isso é amor, e desse amor se morre!


eternamente, março de 2012.


terça-feira, 27 de março de 2012

O BEIJO



quem o beijo inventou 
[pergunta o poeta de outros tempos]
não estou seguro mas o beijo inventou o amor
e os lábios cantaram o poema


o tempo me faz malicioso


"mas esta vida é sempre deliciosa"
[...]
"quem não quisera das sombrias folhas
[...]
as odaliscas espreitar no banho" [...]?


sem o beijo o amor não vingaria
nem o gozo de corpos que se tocam
nem odaliscas nem garotas de Ipanema


o beijo é todo encanto 
[no curto sexo que brilha um só instante]
entre lábios o beijo permanece
e enternece 

acariciado pelo beijo a febre passa
saciado o corpo adormece


[entre aspas, Álvares de Azevedo]


Rio, março de 2012.





segunda-feira, 26 de março de 2012

IN EXTREMIS



morrer de amor
talvez a única memória
do quanto é bom morrer
para viver amores


porque dizer
se é melhor calar para sofrer
o sofrimento de existir
indiferente


se sinto ou não
a esta hora deixo
a tua imaginação
o silêncio do segredo


não morrerei
nada direi
apenas viverei
o meu degredo


se de amor morrer
só eu sei
a quem amei
nenhuma intriga


sei que é bom
cantar essa cantiga
à maneira antiga
e não dizer


confessarei
in extremis
delirante


Rio, março de 2012.