sou o que pareço
o que fui conheço
não sou como as estrelas que se deixam mirar
sou menor sou muito menos
escondo-me do olhar
ser basta para o que sou
não quero a verdade
quero a vida
Rio, janeiro de 2013
jovem instalei-me em minha cabeça
sem tristeza
nunca senti com o coração
senti o pensamento
de ser homem e o fui
mas a beleza
como a percebestes
perguntar-me-ão
como um raciocínio
sem traço de união
encantei-me com o mar...
fui ao mar
admirei o sol
expus-me ao sol
excluí sempre o coração
mas para amar...
amei
amei a vida amei a aurora
amei a praia amei o sol
amei o mundo e sua imperfeição
o nascer de tudo
o mistério e a questão
amei rios e rosas
a música a poesia e a prosa
a neve fria
maria
a liberdade
o céu
o espaço e o poente
presentes e ausentes
fascinante tudo
amei sem coração
Rio, janeiro de 2013
sopra o vento frio
distante longo e dolente
e me abandona solitário
a me inspirar o verso
reflexo fugaz do que há no sentimento
sinto difuso o mundo
entre chamas
uma loucura sã
da angústia de compreender
depois das trevas e do vento
não me sinto aqui
lentas horas
isolado e absurdo
cinza
na tarde ensimesmada
a perceber
a tristeza inteira de um instante
à distância o pensamento reduz
uma forma de desdém
a descerrar sonhos
para tecer
um segundo plano de outono
olhos cerrados ouço o vento
que não quer parar
no escurecer
ouço o som que se alonga
atrás de sombras entre frestas
enquanto se esconde a lua
faz-se então a angústia
ansiosa e inquieta
Rio, janeiro de 2013.
vejo-a logo ali
a um átimo de tempo
entre mim e ela
só a vertigem
dela própria
solta
livre
ígnea
ao vento
voa a palavra
e não a aprisiono
ouço-lhe distante o eco
poeeetá poeta poet poe pooo
Rio, janeiro de 2013
deixo falar as palavras
por si só encontrarão seu destino
não há porque intervir na natureza delas
sempre me pergunto quê fazer diante da encruzilhada
terão elas a mesma angústia
ou não hesitam
o mesmo me pergunto diante de um espelho
sou eu aqui ou sou o outro
elas não se indagam
fácil é concluir que a angústia não lhes pertence
mas em mim revela-se
a cada palavra
as palavras têm sabor de tempo
diria o poeta
são frutos do olvido e do conhecimento
Rio, janeiro de 2013.
sempre que tenho de escolher palavras
temo que não sejam exatas
ou que falem demais
hesito cada vez
porque também dirão quem sou
e não quero revelar-me
há palavras que soam bem
outras que advinham
muitas encaixam-se exatamente
em frases feitas
mas não posso ser enigmático
num poema
que palavras
há-que não supor
nada pensar
nem definir
elas sabem seus caminhos
ou se deixam levar
ao vento
Rio, janeiro de 2013
pensando na Symborska
...prefiro o mito à verdade
amo o sonho odeio o real
sou prisioneiro em plena liberdade...
Rio, janeiro de 2013