o verso de que não preciso
impõe-se alheio
obriga a si próprio
nada o muda
e se faz filho
Rio, agosto de 2013.
o poema não é como sentimos
mas como o escrevemos
sem nem mesmo invenção no correr dos dedos
sobre o teclado frio
a psicografia do poeta consigo
impõe-se a cada letra devorada pelo texto
não há outro caminho
a releitura é a morte da expressão original
cada palavra conspurcando a frase
a autocrítica feroz
de que o sangue é a insônia
e o tédio da repetição
escrito não me recordo a alma
nada é real
não há verdade
a frase resulta da conveniência da composição
e o amor nem implica sentimento ou sentido
ainda que declarado à viva voz
piegas se o deixamos livre
mas
a curiosidade mata o tempo
e a releitura revela insuspeitos segredos
como a flor em botão
o poema ganha independência
perfume às vezes
e sua vida instila sentimentos
no que não se supunha tê-los
tudo é surpresa para o autor
que se reconhece nele
Rio, agosto de 2013.
o instante salta pela janela
como a sorte busca o abismo
inércia do que se tem
fugitivo
do impulso restam coisas
como o vento frio
que sopra sobre as árvores
sob a janela
nem sorte nem instante
senão a paz imperfeita da insatisfação
derramada nesta folha em branco
talvez um poema
Rio, agosto de 2013.
nada trago comigo
nem lembranças nem medidas do tempo
fantasias uma
passageiro outro
e assim toco
inciente
no menor conheço o fato
sentido
captado com interrupções
em meio a amores
ou sem amores
sem paixões
máximo do gozo
no mínimo de tempo
o tempo passa
não o contenho
o gozo é átimo
do passado nem lembrança
vale o instante consciente
dirão que têm memória
do que desacredito
a memória tende ao sonho
revela-se em lembranças soltas
inconscientes
mas há gozo sem paixão
orgasmo sem amor
sem o momento de excitação
- perguntarão
não penso em lembrar-me
- respondo
o instante foi consumido
curto o gozo
a memória se desfez
lembrança é difusa
o tempo tudo desfaz
resta o instante
Rio, agosto de 2013.
para Nydia Bonetti
ah árdua gramática
tu és a regra que nos ensina as coisas por dentro
mas o poeta ama as palavras
e os interstícios que a regra fria não sente
Rio, agosto de 2013.
a linguagem do tempo tem sabor e graça
tem o dom do nada e o sabor de tudo
não é senão a vista do alpendre largo
de que se descortina a vida
instantâneamente
o sabor é leve
pode ser intenso
e a beleza presente no seu estro
está aí a graça
mas
disse alhures que o tempo é vento
que rasteiro voa e ligeiro passa
traz sempre novas
ensina a cada passo
agora digo o tempo é mais que espaço
sôfrego sorve
não acolhe passa
e bem sabemos só nos deixa o rasto
se lhe roubamos o instante
poder-nos-á caber o abismo
ou bem possível um horizonte azul
é breve a tão longa vida
onde tudo cabe
a sete chaves
o tempo curto é capaz de tudo
o largo espaço que da varanda vemos
é o que temos
o tempo é que nos perde
Rio, agosto de 2013.
a Ronaldo, meu irmão
não voltarei a face atrás para cantar passado
o que me encanta ainda na lembrança
é o tempo que alheio a meu presente
só me faz chorar ao vento do futuro
mas
não serei extinto por olhar atrás
tenho ainda a lira
tenho a melodia viva que compus no tempo
tenho quem a cante a me fazer contente
perfume doce de momentos vivos
de meu passado guardo cada instante
com sabor e cheiro
do que foi meu inda que breve
Orfeu não sou nem tenho Eurídice
mas amo a ideia da busca do passado
na memória cheia sobre fertil fado
tenho saudade mas não sofro dela
sei que vivo e só o tempo perde
quando rasteiro voa e velozmente passa
como de si arrependido
por não ter vivido
não há futuro mas soma de presentes
solene tempo de sonho sem projeto
"o fado cumpre-se" diz-me o Poeta
mas "eu me cumpro" no instante breve
Rio, agosto de 2013