sábado, 1 de março de 2014

POEMA INÚTIL



um dia qualquer numa manhã qualquer
um longo rio há de chegar a sua foz
terá sido a realização do mistério da vida
um segredo da natureza
tais que a árvore o monte a planície de que fala Pessoa [Caieiro]

"let's go home" dirá quem me virá buscar
porque escrevo na inútil tentativa de ultrapassar esse momento
e deixar algumas palavras por vezes preenchendo idéias
para uma posteridade ambiciosa mas perplexa
porque não poderá ser verificada

a casa que me está reservada terá um só cubículo
dificilmente habitável
mas destinado a quem viveu ilusões
e doravante não poderá ultrapassar
as quatro paredes sem janelas
de onde não verá o dia nem a noite
só o tempo
que não se medirá

hoje falo comigo também
na penúltima esperança de ver o outro lado
a margem esquerda
mas ninguém se importa com o desaparecimento 
da minha frágil e tentativa ponte
entre duas margens das quais uma só conheço
desse rio que seguirá seu caminho

tarde atribuí-me essa tarefa
como quem constrói essa ponte
entre hoje e amanhã
mas não haverá amanhã exceto para muitos
que não se interessarão pelo que escrevi
a ponte incompleta cairá em ruínas
o rio chegará à foz envolvido pelas águas de outros rios
desconhecidos rios frígidas águas
claras ou poluídas
e o caudaloso rio de outras vidas
ocupará o vazio

Rio, fevereiro de 2014.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

SEREIA

sempre esperei uma sereia
na pedra do Arpoador
viria do mar, esguia, olhos azuis

não há razão que impeça uma sereia de vir
a brisa do sudoeste às vezes é vento
a brisa é úmida e o vento seco
se a natureza fosse perfeita
uma sereia não seria uma metáfora
mas parte do mundo natural

anos atrás eu pensei ver uma sereia
golfinhos quando as ondas grisalhas chegavam à praia
e eles traziam alegria
mas nenhum deles tinha a beleza de minha metáfora
e eu continuo à beira mar
junto das pedras
escrevendo minha canção de amor
apaixonadamente

Rio, fevereiro de 2014.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

UMA NOITE SÓ


são ondas do mar
são apenas ondas do mar
a música que ouço repetida mas harmônica
um som suave vem e vai
que se repete com as gaivotas
em seu vôo circular

sento-me sobre a areia úmida da noite fresca
dispo-me do próprio ego
e deixo-me sentir
que neste verão de calor pouco usual
o frescor da aragem alimenta-me
e me reconforta

um clima de serena madrugada
ajuda-me a sonhar
e talvez entender
a monótona linguagem do mar
que me penetra em forma de solidão

ponho-me dentro de mim
e sinto o sincopado pulsar do coração
isto me acalma
e me alia à palma nunca subjugada pelo vento
mas sensível quando se inclina

ninguém em torno ninguém por perto
sou um homem são em busca das sensações
de cada tato de únicos sons
isolado e feliz como o Argonauta
em busca das emoções verdadeiras [Caieiro]

são apenas as ondas do mar
a música do suave marejar
a guiar as gaivotas
na aragem bem vinda de uma noite 


Rio, fevereiro de 2014.

REAL E SONHO



sonho e realidade
instâncias de uma mesma vida

quando tem sol brilha o sol
quanto chove torrencial a visão é cinza
ao abrir a janela
ao fechá-la

quem sabe a verdade de cada um
com seus próprios olhos
e próprio toque de mão
quem sabe

durante todo o dia
uma flor executa uma cantata de Bach
fruto de sua memória
ouço um cello por vezes soturno e grave
quem sabe não somos donos de nossos ouvidos também

penso e escrevo

do mais puro sonho volto-me para a realidade
são duas horas da manhã
não vejo fora de minha janela a fonte
límpida de água pura
tão comum em Roma

alguém está cego
eu ou a fonte
mas a água é fresca
eu sinto isso

uma gaivota sobrevôa  o mar escuro
não a vejo mas ouço
o que é real o que é sonho
nunca saberei 

e sem planejar
indisciplinadamente
inclino-me em respeito à Criação

Rio, frevereiro de 2014

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

SER POETA



nem alegre nem triste
poeta (Cecília)

penso-me às vezes que ser poeta é interpretar
o fato além do fato
a sensibilidade além da emoção
a alegria antes que se instale
a tristeza quando tem de vir

como Pessoa (Caieiro) amo a natureza
sinto o perfume das flores
como percepção que está entre mim e a flor
uma certa mística
em ver uma pedra no meio do caminho
(Drummond)

nem por isso sou poeta

Rio, fevereiro de 2014.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

VISITA INDESEJADA


circula sorrateira
não ousa tocar-me
estou fechado a suas tentações
e não é o tempo

nem todo dia chove
nem a bruma escurece o caminho
mas a indesejada vem
e cheia de mistério diz
"'e tempo, é quase tempo, esteja preparado
em pouco tempo venho para levá-lo"

pensei como quem pensa
na beleza da noite 
das estrelas cintilantes
e lua cheia
pensei na aurora quando o sol desponta
no poente que despede o dia
e vem a noite bela

dia quente de verão
a brisa lânguida aquecida lambe-me a face
mas pensei na beleza 
que é flor montanha natureza
e mar aberto
pensei materialmente nisso

sem tempo de ser gentil educado agradeço
enquanto penso no que lhe dizer
(é preciso de vez em quando ser indeciso)
para ganhar tempo

pedi tempo
e a indesejada foi-se

Rio, fevereiro de 2014




sábado, 22 de fevereiro de 2014

MINHA CASA II


minha casa tinha janelas vermelhas
e era caiada essa minha casa
uma varanda pequena coroada de uma trepadeira 
que chamávamos primavera
é eterna essa primavera
porque eterna é sua lembrança em minha memória
para mim a casa era grande
largo era seu jardim onde meu pai plantou rosas
essa casa me faz pensar
da importância que ela tem pra mim
e assim porque sinto
essa casa será sempre minha
ninguém a tomará de mim

Rio, fevereiro de 2014.