sábado, 11 de fevereiro de 2017

RITUAL DE CARNAVAL





ouço a música que toca para a gente dançar
ouço os gemidos da moça que não quer descansar
ouço o rapaz heroico a resfolegar
estão logo ali as sombras que se abraçam
na solidão a dois que buscaram para se amar
há animal no ato selvagem de penetrar
nem tanto a alma que ali não quis ter lugar
ouço o surdo ronco do gozo
e uivos de hiena no calor do ato carnal

a noite cheia impele os jovens do lugar 
a pular desengonçados sua fortaleza
num exercício de desgastar e ficar
para fazer valer um gesto de beleza
que na juventude de sua natureza
necessitam essencialmente de ali estar
frenéticos como se o mundo fosse acabar
furiosamente dançam a coreografia do inferno
dançam dançam sem parar
na simplicidade de seus corpos quentes
como quem vive o último dia chegar

o tum-tum  tum-tum-tum não ameaça terminar

nas sombras da noite que não quer acabar
os dois se acalmam depois do gozo animal
miram-se semi-nus num gesto final
lambem-se as carnes molhadas de transpirar
como a cria que da mãe quer mamar
e dão-se a inútil atenção do desdesejo
real frio da morta atração 
tudo passado
para correr cada um para seu lugar
continuam a dançar

tum-tum tum-tum-tum

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

NATAL




a cada dezembro
vem a alegria da criançada
que só quer saber de Papai Noel
e dos presentes de ocasião

as salas brilham
árvores de Natal

mas é um deus ou  um menino
ou  um velhinho vermelho
barbas brancas e olhos azuis
enquanto ao longe se ouvem sinos?

às vezes sou ateu
meu Deus é uma entidade só minha
até que chega dezembro
e vejo Deus nos olhinhos das crianças.


Rio de Janeiro, dezembro de 2016/fevereiro de 2017

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A DERIVA



as vezes sou água
outras sou vento
barco e vela

na proa uma ideia
um horizonte infinito

que será de mim?

o vento sopra 
ideias assim

a quilha aproa pra leste
oceano sem fim
a popa rompe a inércia
barco contido

a água desfaz a razão
e gira a boreste sem mim
água e vento a bombordo

o céu azul é água
a sobra sou eu
pra onde não sei


Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

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O PAIS É MAIOR






representantes do povo
laranjas doleiros cambistas
 acidez não desejável
é como me entristece atuar
poeticamente
em meio à agonia dos que prevaricam  
legislatura caduca

o côncavo e o convexo se fecham
in - sensíveis neste pais
onde entre pecado e pecado
os crimes custam a vingar
como delitos 

democracia liberal ou popular pouco importa
se o pais prosperar para dar
paz e sossego aos que querem votar
sem se deixar ludibriar

talvez fosse o caso de nos queixarmos ao bispo
que ao presidente e muitos asseclas
só lhes resta esperar
o Lava-Jato vai-lhes pegar  

o dia chegará que os ímpios da Justiça
se dobrarão à vontade  
desse povo que sofre
indomável
que não têm o o que comer

acorda Brasil
é hora de resistir
é tempo de reagir
para ensinar esses crápulas
que o país é maior.

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

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DI - VAGAR II



tem sido vivida às vezes aos tropeções
mas certamente vivida em todas as suas riquezas
que das pobrezas só lembro as do espírito
e não me fazem mossa na lembrança

já no fim prossigo
tão sensível é viver assim
para ao fim da picada
como um rio
desbordar no mar

não foi de monotonias
navegar o mundo
tocar aqui e alhures
as gentes do lugar

um prêmio certamente foi errar
entre o Louvre e a Place Pigalle
passando pelo Marais
medalha para o Trianon
e para a Piazza de minha paixão
eternamente lá para contar
histórias de navegar
tendo como pano de fundo
o Pamphili 
casa de meu país
para epilogar

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

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DI - VAGAR



ah o amor cantar o amor
cantarei certamente o dissabor
de sonhar que amei
e ao amar amei quem não me amou
sonhar sonhei o mistério
incompreendido mistério de não saber
o sofrimento de amar

amar sem perceber o sem sentido
de nada ter por objeto
abjeto amor do compromisso
livre melhor selaria o in - finito
e não feriria sentimento tão bonito

ah cantar o amor sem dor
será que vivo e sobrevivo
à ilusão de viver
sentir e vegetar?

mas canto sim por quem amei
dei-me entreguei-me 
ao gozo feliz de existir

amador do corpo nu sorei
esperma do que se vive
do que se nasce 
magia foi assim 
possível vício
a naufragar em óvulos diários
e conviver e conceber
suave vicejar 
bebês e choramingos 
lindos

infância juventude tardia adolescência
sem fim por toda vida
assim como gerar o amor
e atracar ao fim o porto
e mirar atrás a obra por que me aprofundei

ah cantar o amor é indolor
combinar palavras vazias de sentido
na madrugada errante
tão fácil dizer aos banidos desta vida
que se amam as flores do jardim
e é a vida

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

METRO DA BARRA




pois é 
não estou só
tenho comigo minha consciência
tenho visão tato e paixão
tudo isso em coexistência
pacífica
com momentos de reflexão

a quietude não é silêncio
ajuda no passeio de mim comigo mesmo
sem projeto sem programa
aposentado
de pijama ou de pantufas
nu

não discuto o absoluto
parece que existe
no radicalismo dos narcisistas malignos
onde não há poesia
mas ingratidão quanto à vida que viveu

tudo é real
como as vozes da nona sinfonia de Beethoven
ou o segundo concerto de Mahler
ou o samba de uma nota só
de Tom

o silêncio brota das profundezas da mente
quieto como sói
e vai longe como o metrô da Barra
mas não chega 
para
no meio do caminho
onde há uma pedra

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017