terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

VASTO MUNDO




escuto-lhe mundo por unidade
sem formalismo em abstrato
e o que sinto não sei se é alegria
ou se há tristeza no que lhe falta de harmonia

dentro em mim o norte e o sul
revejo como lugares e me arrepia
a disparidade entre tantos
desunindo gentes desproporcionalmente 

nego a percepção linear
o mundo sofre oscilações
e pulsa como um pêndulo

meu passaporte registra quarenta e quatro cantos
muitos nada dizem de si e se confundem
na variedade igual do atraso e da pobreza

a organização e a riqueza existem
na afluência de tudo ter
na limpeza e na ordem aparente

não há porto na rota do vento
nada que nos console
nada que nos compense
nada  

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

(www.poemasinconjuntos.com.br)

sábado, 11 de fevereiro de 2017

RITUAL DE CARNAVAL





ouço a música que toca para a gente dançar
ouço os gemidos da moça que não quer descansar
ouço o rapaz heroico a resfolegar
estão logo ali as sombras que se abraçam
na solidão a dois que buscaram para se amar
há animal no ato selvagem de penetrar
nem tanto a alma que ali não quis ter lugar
ouço o surdo ronco do gozo
e uivos de hiena no calor do ato carnal

a noite cheia impele os jovens do lugar 
a pular desengonçados sua fortaleza
num exercício de desgastar e ficar
para fazer valer um gesto de beleza
que na juventude de sua natureza
necessitam essencialmente de ali estar
frenéticos como se o mundo fosse acabar
furiosamente dançam a coreografia do inferno
dançam dançam sem parar
na simplicidade de seus corpos quentes
como quem vive o último dia chegar

o tum-tum  tum-tum-tum não ameaça terminar

nas sombras da noite que não quer acabar
os dois se acalmam depois do gozo animal
miram-se semi-nus num gesto final
lambem-se as carnes molhadas de transpirar
como a cria que da mãe quer mamar
e dão-se a inútil atenção do desdesejo
real frio da morta atração 
tudo passado
para correr cada um para seu lugar
continuam a dançar

tum-tum tum-tum-tum

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

NATAL




a cada dezembro
vem a alegria da criançada
que só quer saber de Papai Noel
e dos presentes de ocasião

as salas brilham
árvores de Natal

mas é um deus ou  um menino
ou  um velhinho vermelho
barbas brancas e olhos azuis
enquanto ao longe se ouvem sinos?

às vezes sou ateu
meu Deus é uma entidade só minha
até que chega dezembro
e vejo Deus nos olhinhos das crianças.


Rio de Janeiro, dezembro de 2016/fevereiro de 2017

(www.poemasinconjuntos.com.br)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A DERIVA



as vezes sou água
outras sou vento
barco e vela

na proa uma ideia
um horizonte infinito

que será de mim?

o vento sopra 
ideias assim

a quilha aproa pra leste
oceano sem fim
a popa rompe a inércia
barco contido

a água desfaz a razão
e gira a boreste sem mim
água e vento a bombordo

o céu azul é água
a sobra sou eu
pra onde não sei


Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

(www.poemasinconjuntos.com.br)

O PAIS É MAIOR






representantes do povo
laranjas doleiros cambistas
 acidez não desejável
é como me entristece atuar
poeticamente
em meio à agonia dos que prevaricam  
legislatura caduca

o côncavo e o convexo se fecham
in - sensíveis neste pais
onde entre pecado e pecado
os crimes custam a vingar
como delitos 

democracia liberal ou popular pouco importa
se o pais prosperar para dar
paz e sossego aos que querem votar
sem se deixar ludibriar

talvez fosse o caso de nos queixarmos ao bispo
que ao presidente e muitos asseclas
só lhes resta esperar
o Lava-Jato vai-lhes pegar  

o dia chegará que os ímpios da Justiça
se dobrarão à vontade  
desse povo que sofre
indomável
que não têm o o que comer

acorda Brasil
é hora de resistir
é tempo de reagir
para ensinar esses crápulas
que o país é maior.

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

(www.poemasinconjuntos.com.br)

DI - VAGAR II



tem sido vivida às vezes aos tropeções
mas certamente vivida em todas as suas riquezas
que das pobrezas só lembro as do espírito
e não me fazem mossa na lembrança

já no fim prossigo
tão sensível é viver assim
para ao fim da picada
como um rio
desbordar no mar

não foi de monotonias
navegar o mundo
tocar aqui e alhures
as gentes do lugar

um prêmio certamente foi errar
entre o Louvre e a Place Pigalle
passando pelo Marais
medalha para o Trianon
e para a Piazza de minha paixão
eternamente lá para contar
histórias de navegar
tendo como pano de fundo
o Pamphili 
casa de meu país
para epilogar

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

(www.poemasinconjuntos.com.br)  

DI - VAGAR



ah o amor cantar o amor
cantarei certamente o dissabor
de sonhar que amei
e ao amar amei quem não me amou
sonhar sonhei o mistério
incompreendido mistério de não saber
o sofrimento de amar

amar sem perceber o sem sentido
de nada ter por objeto
abjeto amor do compromisso
livre melhor selaria o in - finito
e não feriria sentimento tão bonito

ah cantar o amor sem dor
será que vivo e sobrevivo
à ilusão de viver
sentir e vegetar?

mas canto sim por quem amei
dei-me entreguei-me 
ao gozo feliz de existir

amador do corpo nu sorei
esperma do que se vive
do que se nasce 
magia foi assim 
possível vício
a naufragar em óvulos diários
e conviver e conceber
suave vicejar 
bebês e choramingos 
lindos

infância juventude tardia adolescência
sem fim por toda vida
assim como gerar o amor
e atracar ao fim o porto
e mirar atrás a obra por que me aprofundei

ah cantar o amor é indolor
combinar palavras vazias de sentido
na madrugada errante
tão fácil dizer aos banidos desta vida
que se amam as flores do jardim
e é a vida

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

(www.poemasinconjuntos.com.br)