"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
UM POEMA FÚTIL
nada tão fútil
quanto esquecer a chave na porta
que nunca abriu
nem devo chorar por isso
não melhora o tempo
nem chove
nem o sol brilha
desejar não abre a porta
nem o amor
e tranca só a monotonia
sem alegria
de quatro paredes frias
e a janela que se fecha sobre si mesma
onde só resta a falta
que de mim sou eu mesmo
nostalgia
enquanto lá fora erra a gente
rápida
devagar
ágil
sonolenta
sem nenhuma vontade de entrar
essa é a história
desse poema sem brilho
onde o sentir
não se revela
nem sonha
fecha
Rio de Janeiro, fevereiro de 2017
[www.poemasinconjuntos.com.br]
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
ECO OCO
eclipses todo tempo
a todo o instante elipses
obscurecem o pensamento
ferindo sentimentos
não há sabores
mas dores
faz-se o silêncio
no ocaso
no acaso
assim entendo por quê vivo
ou por quê deixarei de viver
é só num coito possível
do amor impossível
sói acontecer
depois dói
jamais pensar noite a dentro
nem o pensamento pensado
nem o prensado
entre sono e o sonho
oco eco
melhor dormir
para não sentir
Rio de Janeiro, madrugada de 17 de fevereiro de 2017.
(www.poemasinconjuntos.com.br)
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
VASTO MUNDO
escuto-lhe mundo por unidade
sem formalismo em abstrato
e o que sinto não sei se é alegria
ou se há tristeza no que lhe falta de harmonia
dentro em mim o norte e o sul
revejo como lugares e me arrepia
a disparidade entre tantos
desunindo gentes desproporcionalmente
nego a percepção linear
o mundo sofre oscilações
e pulsa como um pêndulo
meu passaporte registra quarenta e quatro cantos
muitos nada dizem de si e se confundem
na variedade igual do atraso e da pobreza
a organização e a riqueza existem
na afluência de tudo ter
na limpeza e na ordem aparente
não há porto na rota do vento
nada que nos console
nada que nos compense
nada
Rio de Janeiro, fevereiro de 2017
(www.poemasinconjuntos.com.br)
sábado, 11 de fevereiro de 2017
RITUAL DE CARNAVAL
ouço a música que toca para a gente dançar
ouço os gemidos da moça que não quer descansar
ouço o rapaz heroico a resfolegar
estão logo ali as sombras que se abraçam
na solidão a dois que buscaram para se amar
há animal no ato selvagem de penetrar
nem tanto a alma que ali não quis ter lugar
ouço o surdo ronco do gozo
e uivos de hiena no calor do ato carnal
a noite cheia impele os jovens do lugar
a pular desengonçados sua fortaleza
num exercício de desgastar e ficar
para fazer valer um gesto de beleza
que na juventude de sua natureza
necessitam essencialmente de ali estar
frenéticos como se o mundo fosse acabar
furiosamente dançam a coreografia do inferno
dançam dançam sem parar
na simplicidade de seus corpos quentes
como quem vive o último dia chegar
o tum-tum tum-tum-tum não ameaça terminar
nas sombras da noite que não quer acabar
os dois se acalmam depois do gozo animal
miram-se semi-nus num gesto final
lambem-se as carnes molhadas de transpirar
como a cria que da mãe quer mamar
e dão-se a inútil atenção do desdesejo
real frio da morta atração
tudo passado
para correr cada um para seu lugar
continuam a dançar
tum-tum tum-tum-tum
Rio de Janeiro, fevereiro de 2017
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
NATAL
a cada dezembro
vem a alegria da criançada
que só quer saber de Papai Noel
e dos presentes de ocasião
as salas brilham
árvores de Natal
mas é um deus ou um menino
ou um velhinho vermelho
barbas brancas e olhos azuis
enquanto ao longe se ouvem sinos?
às vezes sou ateu
meu Deus é uma entidade só minha
até que chega dezembro
e vejo Deus nos olhinhos das crianças.
Rio de Janeiro, dezembro de 2016/fevereiro de 2017
(www.poemasinconjuntos.com.br)
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
A DERIVA
as vezes sou água
outras sou vento
barco e vela
na proa uma ideia
um horizonte infinito
que será de mim?
o vento sopra
ideias assim
a quilha aproa pra leste
oceano sem fim
a popa rompe a inércia
barco contido
a água desfaz a razão
e gira a boreste sem mim
água e vento a bombordo
o céu azul é água
a sobra sou eu
pra onde não sei
Rio de Janeiro, fevereiro de 2017
(www.poemasinconjuntos.com.br)
O PAIS É MAIOR
representantes do povo
laranjas doleiros cambistas
acidez não desejável
é como me entristece atuar
poeticamente
em meio à agonia dos que prevaricam
legislatura caduca
o côncavo e o convexo se fecham
in - sensíveis neste pais
onde entre pecado e pecado
os crimes custam a vingar
como delitos
democracia liberal ou popular pouco importa
se o pais prosperar para dar
paz e sossego aos que querem votar
sem se deixar ludibriar
talvez fosse o caso de nos queixarmos ao bispo
que ao presidente e muitos asseclas
só lhes resta esperar
o Lava-Jato vai-lhes pegar
o dia chegará que os ímpios da Justiça
se dobrarão à vontade
desse povo que sofre
indomável
que não têm o o que comer
acorda Brasil
é hora de resistir
é tempo de reagir
para ensinar esses crápulas
que o país é maior.
Rio de Janeiro, fevereiro de 2017
(www.poemasinconjuntos.com.br)
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