quarta-feira, 4 de junho de 2008

ALEGRE OU TRISTE

[para Sônia que me questiona]


... não canto porque seja triste mas porque penso
nem alegre serei
porque sinto
minha paixão não envolve coração
mas tempo

sou livre

portuguesamente apegado à linguagem
literariamente limitado a este hiato
que chamarei de vida
por absoluta falta da palavra
nua ou crua
que me diga o que sou
por que sou
nesta eternidade do momento...


Londres, junho de 2008.

domingo, 1 de junho de 2008

FAULHEIT

[indolência]






não me tentam nuvens rápidas
não tentassem quem se deixasse tentar
pela doçura insidiosa dos céus
e acreditasse no tempo
clepsidra que intercepta o que resta

não a deixo medir
não a quero
intercepto o passo
retiro os reflexos
imperturbavelmente
sinto-me eterno.

Londres, maio de 2008.

SORTE




Horas sem fim esperarei o rigor
da dura sorte
torpe e áspero golpe
de quem me suprimirá a vida.

Londres, maio de de 2008.

CONSTATAÇÃO




Às vezes vem-me a nostalgia
de pensar na amargura de quem suprimiu o sonho
para viver da fantasia das notas
que não lerão os dias.

Perversa vida que faz do verso o seu reverso
na eternidade perdida
de quem esquece a purificação do entendimento.

Nada o salvará da implacável lei do universo
já não cria
recolhido a si mesmo encarcerado
agride o momento que lhe foge
monocórdio
apenas sobrevive ao tempo sucessivo
atormentado
dessa terrível armagura...

Londres, maio de 2008

quinta-feira, 29 de maio de 2008

SENSAÇÃO






sufoco!
o ar que me falta impede-me de pensar
na ilusão de tantas sensações

coisas passadas
algumas sigilosas
quantas presenças
deixaram de alimentar meu coração
mas durarão a duração do tempo
como vento
além do esquecimento...


Londres, maio de 2008.



CULTO




Quem sou já não posso medir
mas sou um homem vivido
um rosto
cristal lapidado na experiência
tramado nos sonhos
translúcido sob a baça luz do poente.

Tardio tempo de antecipadas decisões
que jamais tomei
não me permite o que poderia ter sido
no movimento de astros
imprevisivelmente previsíveis.

Contenho-me diante da noite que o crepúsculo prenuncia
a decifrar naipes embaralhados
e meditar sobre a próxima casa
antes de mover pedras no tabuleiro
da dúvida e da quietação.

Estranho o que me é dado
desconheço o que produzi
não ouso supor o que será
apenas
debruço-me sobre o tempo.

Vaidade não há
transpus os umbrais dos sentimentos mortais
e não pretendo o Olimpo
que sou apenas homem a perseguir o inevitável.

Nunca saberei o que se passará
outras formas outro ser outra dimensão
outra face de vida transbordante
sensível mas invisível
como o vento.

Acima da verdade sobrevivo abaixo
a realidade adquirida
na percepção das coisas independentes
dos deuses ou das gentes
no eterno culto da vida.

Londres, maio de 2008.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

ACHADOS E PERDIDOS




Estava eu em meio de achados
impacientes por não serem encontrados
entre perdidos mal-amados
não atinei por acaso procurando-me
a ilusão nem mesmo encontrei
o outro que era eu no achado que perdi.



NYC, junho de 2002