sábado, 7 de junho de 2008

67 anos




aos sessenta e sete anos arrisco a ironia
estar morto e imaginar-me vivo
na indolente faina de escrever
palavras ignorando idéias

o outono é a última estação
antes do inverno que congela
de modo silencioso e persistente
ondas da hesitação ora de dúvida

o homem conhece seu destino
e não se lhe opõe nem o nega
pois o poema nesta tarde é vida
mais além de sua pena


Londres, junho de 2008.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

SUDOESTE




julho
o verso não ignora o novo ritmo
e o calor que meu país me incorpora


o imaginado passado reabre-se
para contemplar o futuro
sem as fantasias do sonho


como os astros o futuro flutua
em busca da última estrela
olhos no desígnio dos céus


tudo é secreto

felizmente indecifrável
à beira-mar os ventos do sudoeste
que não me levam ao norte

qualquer verdade será falsa
toda história parte da memória
o desejo mero ensejo
do que certamente não farei
por pura falta de tempo...



Londres, junho de 2008.


SORTE




Tudo milita em favor da vida
menos a morte
que depende da sorte
mas não permite nenhuma sobrevida.

Londres, junho de 2008

quinta-feira, 5 de junho de 2008

AINDA SOBRE SER ALEGRE OU TRISTE



... é na fria noite de Londres que escrevo
madrugadas que me deixam só com as palavras
e o mundo em torno tecendo o que digo
mas não digo tudo

não creio em idéias muito pessoais
mas tenho muitas e as desminto
no mesmo ritmo delas

prossigo a noite inteira sem falar de mim
mas confessional para os que crêem em confissão
passo como quem anda devagar por todas as confissões
como se fossem minhas

imperturbável surge o poema
que não é alegre nem triste mas poema
para quem os leia alheio a mim
onde só palavras estão presentes.

Londres, junho de 2008.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

ALEGRE OU TRISTE

[para Sônia que me questiona]


... não canto porque seja triste mas porque penso
nem alegre serei
porque sinto
minha paixão não envolve coração
mas tempo

sou livre

portuguesamente apegado à linguagem
literariamente limitado a este hiato
que chamarei de vida
por absoluta falta da palavra
nua ou crua
que me diga o que sou
por que sou
nesta eternidade do momento...


Londres, junho de 2008.

domingo, 1 de junho de 2008

FAULHEIT

[indolência]






não me tentam nuvens rápidas
não tentassem quem se deixasse tentar
pela doçura insidiosa dos céus
e acreditasse no tempo
clepsidra que intercepta o que resta

não a deixo medir
não a quero
intercepto o passo
retiro os reflexos
imperturbavelmente
sinto-me eterno.

Londres, maio de 2008.

SORTE




Horas sem fim esperarei o rigor
da dura sorte
torpe e áspero golpe
de quem me suprimirá a vida.

Londres, maio de de 2008.