"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
sexta-feira, 6 de junho de 2008
SUDOESTE
julho
o verso não ignora o novo ritmo
e o calor que meu país me incorpora
o imaginado passado reabre-se
para contemplar o futuro
sem as fantasias do sonho
como os astros o futuro flutua
em busca da última estrela
olhos no desígnio dos céus
tudo é secreto
felizmente indecifrável
à beira-mar os ventos do sudoeste
que não me levam ao norte
qualquer verdade será falsa
toda história parte da memória
o desejo mero ensejo
do que certamente não farei
por pura falta de tempo...
Londres, junho de 2008.
SORTE
Tudo milita em favor da vida
menos a morte
que depende da sorte
mas não permite nenhuma sobrevida.
Londres, junho de 2008
quinta-feira, 5 de junho de 2008
AINDA SOBRE SER ALEGRE OU TRISTE
... é na fria noite de Londres que escrevo
madrugadas que me deixam só com as palavras
e o mundo em torno tecendo o que digo
mas não digo tudo
não creio em idéias muito pessoais
mas tenho muitas e as desminto
no mesmo ritmo delas
prossigo a noite inteira sem falar de mim
mas confessional para os que crêem em confissão
passo como quem anda devagar por todas as confissões
como se fossem minhas
imperturbável surge o poema
que não é alegre nem triste mas poema
para quem os leia alheio a mim
onde só palavras estão presentes.
Londres, junho de 2008.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
ALEGRE OU TRISTE
[para Sônia que me questiona]
... não canto porque seja triste mas porque penso
nem alegre serei
porque sinto
minha paixão não envolve coração
mas tempo
sou livre
portuguesamente apegado à linguagem
literariamente limitado a este hiato
que chamarei de vida
por absoluta falta da palavra
nua ou crua
que me diga o que sou
por que sou
nesta eternidade do momento...
Londres, junho de 2008.
... não canto porque seja triste mas porque penso
nem alegre serei
porque sinto
minha paixão não envolve coração
mas tempo
sou livre
portuguesamente apegado à linguagem
literariamente limitado a este hiato
que chamarei de vida
por absoluta falta da palavra
nua ou crua
que me diga o que sou
por que sou
nesta eternidade do momento...
Londres, junho de 2008.
domingo, 1 de junho de 2008
FAULHEIT
[indolência]
não me tentam nuvens rápidas
não tentassem quem se deixasse tentar
pela doçura insidiosa dos céus
e acreditasse no tempo
clepsidra que intercepta o que resta
não a deixo medir
não a quero
intercepto o passo
retiro os reflexos
imperturbavelmente
sinto-me eterno.
Londres, maio de 2008.
não me tentam nuvens rápidas
não tentassem quem se deixasse tentar
pela doçura insidiosa dos céus
e acreditasse no tempo
clepsidra que intercepta o que resta
não a deixo medir
não a quero
intercepto o passo
retiro os reflexos
imperturbavelmente
sinto-me eterno.
Londres, maio de 2008.
SORTE
Horas sem fim esperarei o rigor
da dura sorte
torpe e áspero golpe
de quem me suprimirá a vida.
Londres, maio de de 2008.
CONSTATAÇÃO
Às vezes vem-me a nostalgia
de pensar na amargura de quem suprimiu o sonho
para viver da fantasia das notas
que não lerão os dias.
Perversa vida que faz do verso o seu reverso
na eternidade perdida
de quem esquece a purificação do entendimento.
Nada o salvará da implacável lei do universo
já não cria
recolhido a si mesmo encarcerado
agride o momento que lhe foge
monocórdio
apenas sobrevive ao tempo sucessivo
atormentado
dessa terrível armagura...
Londres, maio de 2008
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