sexta-feira, 16 de março de 2012

AGUACEIRO [ÁGUAS DE MARÇO]



a chuva inundou ruas e praças mas não lavou meu amor


mudanças de clima pra mim são anti-climáticas impedem-me de chegar onde quero


o aguaceiro lava a alma tem valor de poema

é água que desce o morro e mais não vejo de grave


chove chuva chove sem parar


do mundo nada se leva nem o vento que sopra forte nem a chuva que cai


dói-me que o amor que tu me tens eu não o possa levar


tenho ar pra respirar céu azul sol e amor


por tudo isso não temo nem água nem fogo amigo


navego e sei mergulhar ainda estou vivo



Rio, março de 2012.



quinta-feira, 15 de março de 2012

O FIM DO MUNDO



desço as escadas de mim mesmo chego ao rés do chão onde fico
talvez não devesse ter saído
não quis muito tive tudo fui feliz
caminharam todos os que pus no mundo pelo amor e pela construção
hoje falta tudo estou só na contagem perversa do que a vida dura
conforta-me a esperança talvez 
o amor que resta até que chegue o fim de tudo




Rio, março de 2012.






À POESIA



hoje é dia da poesia e vou ao teu encontro
nesse sem mais nada a dizer
exceto a dádiva de te haver lido
em tempo de viver


teu afazer é o poema
a cultivar como rosas
num jardim repleto de jasmins
em cercas vivas
no cercado em que sentimos
a alegria de teus versos


mesmo eu que ouso escrever
vejo-me bafejado da fortuna
de me chamarem poeta
que não sou
cultivo apenas lírios das campinas
frios brancos distantes


tu poesia não és ocultação
trazes o mistério das palavras
e o abismo onde o vento
perde orientação
para deixar-nos muitos
desassistidos pela falta de inspiração


nunca a vontade foi tão minha
de escrever versos
mas a lua depois de exposta por três dias
deixou-me fui omisso


vem poesia viva vem ao meu encontro
tu que me trouxestes Camões
exultastes diante de Pessoa
e sorristes lendo Drummond
para encantar-te com Bandeira
um homem só
a nos revelar Pasárgada
onde era amigo do rei


rendo-me a teus encantos e a tua melodia
quero teu amor e os conceitos
que em ti ganharam movimento no ritmo de tua inspiração
quero tuas rimas e aliterações
quero a liberdade que me ensinastes
em forma de canção


Rio, março de 2012.






quarta-feira, 14 de março de 2012

UM DIA DE POESIA



como pedra em mim nasce o poema
de um momento seco
que entretenho há tempo
e não conheço


eclode o eco que sou eu
quando há bruma
e a noite é não fazer
sob luz quieta o sonho renascer


e no entanto um sentimento de ternura
em torno de um mistério sem segredos
é uma entrega em palavras


instante mágico
quando a pedra original desfaz-se em água
descendo o canto ao papel jornal


Rio, marco de 2012.




A LUA [sob a luz do luar]



para o Márcio, meu irmão



a  Lua é diferente cada dia não pode ser igual
nem  a alegria repete a brisa que sopra do mar
a alegria é minha a brisa só vem do mar

todo sonho vem da Lua são sonhos diferentes

cada ser é um homem só ele só [às vezes] sabe quem é
os olhos que tem da Lua são dele de mais ninguém


ser diferente é dom da criação assim nasce a gente
essa diversidade e o mundo essa alegria de ser


percebemos as coisas como são nós as sentimos 
a maçã a lua a montanha são riquezas por não serem iguais


se eu morrer levarei comigo o meu sol meu mar meu amor
mas todos ficarão aqui para cada um de vocês


irão eles comigo ficarão todos aqui
os que foram foram comigo
mas a Lua ah a Lua os fará sonhar
por anos e anos ao fim  

sim as coisas são diferentes porque diferentes elas são


cada homem tem sua Lua cada mulher sua maçã
cada lua dá à maçã o homem que a mulher tem

a Lua é diferente porque  assim tem de ser 

Rio, março de 2012.



terça-feira, 13 de março de 2012

MEU BARCO



alguma coisa aconteceu
o meu barco está sem rumo
as estrelas do céu não me ajudam a navegar
o oceano bate impiedoso
há pedras à frente talvez terra
e um cais onde ancorar
cabe tentar
não naveguei a vida toda 
para receber a morte
assim de maneira imprevista
o oceano é largo
mas a batida do mar forte 
é ameaça antes do cais
vou vendo o que o mar me reserva
traiçoeiro por vezes
imprevisível ele é
preciso medir as ondas para não me deixar enganar
o tempo é a grande medida
inevitável é a morte
de que não se pode escapar
mas se a pedra rija   
e o mar impetuoso
não insistirem teimosos 
a quilha talvez intacta
talvez talvez talvez
ainda possa aportar


Rio, 13 de março de 2012.



segunda-feira, 12 de março de 2012

A CASA



a casa é simples o coração mais complexo
porta para os amigos fechada a desafetos
janelas para entrar ar e olhar 


pouco dinheiro para ocupar prateleiras pela metade da fome


a casa é branca caiada corações janelas portas azuis
a sala vazia do escasso sofá de modo a que sempre caiba ventilador e TV


a cozinha é coração cansado de tanto bater
da mulher com olhos de espera cansada do que pedirão 


o ladrilho do chão falta aos pés que os pisarão
juntam água lambendo paredes negras de fumo
sob luz sobre sombra

no quarto cama trazida de onde não sei
um homem dorme em silêncio ronca quieta tensão


outras camas juntadas demônios ou anjos da noite
sonham em segredo vento quente verão 


vagas pessoas na sala cerveja quente na mão
sem dizer de onde vêm não anunciam onde vão


no quintal nada se passa exceto o cão a ladrar
mangueira que não dá manga galinha ligeira mais magra

escrevo
e tu a me ler
 




Rio, março de 2012.