quarta-feira, 14 de maio de 2008

O POEMA



[uma interpretação]
um poema-teoria para Claudia Ferraro

O encanto poético é mágico
palavras que se juntam e partem
para quem as quiser receber
como os sonhos
produtos do inconsciente
para ser encanto.

Magia é o sentido de encanto
uma percepção inexplicável
um ritmo interno
que está na metáfora
nas sílabas justapostas
nos acentos e tons a perpassar o poema.

Às vezes o ritmo é forma
outras tantas é sensivelmente idéia
fundo poético

nunca é lógico
na explicação linear
nem na discussão dialética.
Prosa é razão
poesia é emoção
menos do que sentimento
uma sensação
abstrata sutil sem razão
aparente.
Inicialmente o encanto é do poeta
enquanto escreve
ao descobrir o transporte
que a palavra propicia
entre o inconsciente e o texto
cujas idéias insinua;
acaba por ser do leitor finalmente
quem lê e recria
o mesmo texto
em outra dimensão
que é a da sua cultura
sensibilidade e imaginação.
O poema é livre
o poema voa.

Londres, maio de 2008.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Villa Lobos





Maior que tudo a música é cada coisa e todas elas no seu tempo
sons que me consomem em ondas a derramar-me em vida
a melodia ecoa o som de minha gente

toque do congado
a lembrança de cada coisa passa e todas passam no meu tempo

passa passa gavião
passa cavaleiro
passa

convida a sorte
pula roda viva

soa violão!



Roma, 18 de janeiro de 2003.

BALADAS



quatro Baladas desvendam o segredo que o piano guarda solene

Glen Gould

soa o momento quando o gênio retempera a criação

na tarde o que foi instante
fez silêncio.


Pressenti a balada antes de acontecer

Brahms
em noite de pertencer


NYC, janeiro de 2001.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

PRIMAVERA



hoje de manhã o mundo era diferente
e o passado irremediavelmente ausente
qual girasol no olhar fitando luz


floresce o amor no justo tempo

não fosse apenas flor nos olhos das crianças
redescobrindo o sol

é primavera em vôo de abelhas
rododentros narcisos coloridos
como negação de minhas hesitações

descuidadamente vivo.


Londres, manhã de 12 de maio de 2008.





ENTENDER ESTRELAS



Mensagem para Maria Luiza

No homem tudo é fadiga desde o nascimento

nada o pode consolar de haver nascido
assim a poesia é claro sentimento
desde o primeiro e inicial vagido.

Vive o poeta de mirar estrelas
e olhar maravilhado o firmamento
que Deus pôs lá a permitir que lê-las
Lhe revelasse o divino pensamento.

Nada é verdade nem falso
que não seja a sutileza de um sentir tão alto
que ultrapasse estrelas

e seja a doce inspiração de tê-la
leal fiel e companheira no alto de meus dias
em busca ainda de entendê-las.


Roma, 4 de fevereiro de 2006.

DIVAGAÇÃO



deuses e heróis em densa bruma
no cruzamento da eternidade com o tempo


Roma, julho de 2004.

DESESPERANÇA



Sonhei que me recolhia para colher pensamentos
de um momento de desesperança
entre a contradição e o absurdo
de um dia de alegria.

Era noite de melancolia.

Sonhei que um murmúrio ligeiro amanhecia
como regato em busca de silêncio

na realidade louca.

Que importa se o ruído estilhaça o silêncio
e tudo apaga a consciência?

Sonhei que sonhava a desesperança como vil ausência
na noite em que me recolhi
para conhecer pensamentos.

Não sei se o que sonhei nem se o esforço
de recordar me apoia
ao escrever o que neste papel é dúvida
uma inquietação indefinida
que esse ruído de existir me cria.


Roma, 2 de abril de 2005.