quinta-feira, 11 de agosto de 2011

SONO



ah canto o abismo 
canto sem cair do chão
vazio em plena cheia
de amor nesta canção


canto porque é fundo
o sentimento que além agita
a vida e são idéias
a crer no "amor humano" [1]


canto porque vivo o mundo
e o tempo é passageiro
a despeito de qualquer engano


canto o sonho breve
de um sono muito mais profundo 


Rio, agosto de 2011.



[1] José Régio

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

FORMAS DO ABISMO







que falar desse olhar
por sobre a pedra
onde o ar se rarefaz


uiva o vento vivo
onde o abismo se desfaz


julho de 2009/agosto de 2011


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DA COLINA AO VALE







uma vida não vale um dia
nem um dia é suficiente
para refletir a vida


da planície ao cume foi um lance
mantendo-me a prumo
enquanto o ar já rarefeito
tomava-me o hálito
como um punhal


ao longe árvores pré-anunciavam a floresta
e mais além talvez o horizonte
de onde jamais me aproximei


deixei atrás a sombra
e retomei-me o corpo
e à cal calei a trilha
para não voltar


passei a floresta em meio a cardos
e plantas tantas
insisti apaixonado
em chegar do outro lado


a palavra veio depois ainda úmida
seguiu-me calada todo o tempo
para vingar-me ao fim
do que não fui 
do que não fiz


nem mágoa mas lembrança
doce mel de meu passado
lembrança nunca mágoa
nem mais nem menos 
memória


o que ainda tenho é tudo
não o que sobrou
mas o que amealhei
carinhosamente


a nova realidade é serena
fez-me querer tudo que tenho
e descobrir um mundo novo
que não é colina é vale
onde corre o rio feliz de minha vida


a farsa, diz o poeta, essa continua [1]




Rio, agosto de 2011





[1] Eugénio de Andrade

MOMENTO FUGIDIO


ao momento fugidio


não há glória que resista ao final
talvez apenas a lembrança
e basta
tudo no mundo é passagem
afinal somos sempre mais um
a não ser compreendidos
a ser esquecidos
ou a ser glorificados
post-mortem


o amor é sentimento que se transforma
permanentemente
idealmente para melhor
se soubermos entender suas etapas
mas as vicissitudes podem ser sombra
ainda que ligeiras
mas verdadeiras


há-que saber entender o amor e a glória
para sobreviver sem mágoas
o que resta dos anos
nessa proximidade do fim


ah os sentimentos confrontantes
do amor e de um desamor não necessário
nem verdeiro
contam a história
dos zig-zags dos altos e dos baixos
em terceira dimensão
do ritmo do coração


de resto resta o resto que nos maltrata
no momento impróprio e subjetivo
de cada um
não há vidas convergentes
não se produzem coincidências absolutas
há paralelas cujo encontro é caminharem juntos
sem confronto


não joguemos partidas de xadrez no mata-mata
não nos peçamos convergências
nem nos demos xeque-mate


em amarmos o que temos
amamo-nos


nada me dará refúgio depois de tudo
o momento fugidio é este
há-que entendê-lo
sem que haja quem perca ou quem vença
no que ainda é a virtude
do passado que não se esquece
mas não se repete


tudo são palavras que soam gritos
e os entendo em clarões e sobressaltos
mas ainda espero que as leve o vento


Rio, agosto de 2011.







quinta-feira, 28 de julho de 2011

A VIDA RETOMADA







quando o amor se revela
o sol aquece o dia
brilha sobre a pedra
faz prata de ondas sinuosas


palavras se tornam música
ao som de baterias
a soar o rumor sensual do mundo


o amor renasce 
em corpos nacarados
que se desnudam bem amados
sob olhares cobiçosos


desceu dos céus a graça
nas praias deste Rio

Rio, julho de 2011.



quarta-feira, 27 de julho de 2011

MATINAS









a luz do sol sobre o azul
era um calor quase frio
e as ondas grisalhas
rolavam mansamente lá


esse dia [como cada dia] 
é promessa 
que se repete
até o sol afogar-se em chamas
à sombra dos Dois Irmãos


fluindo o tempo
vêm os sonhos
a voar em plena manhã
se houver vento


de minha janela vejo
céu e mar 
o que sinto parte
nas asas de uma gaivota

Rio, julho de 2010.



sábado, 23 de julho de 2011

"VAGA HISTÓRIA COMEZINHA" [1]



triste o tempo
que como nuvem passa
e nos engana ao parecer ficar


era eu pequeno e alimentava sonhos
que ventos desfaziam
em nuvens brancas a se movimentar


mas sonhos ficam e as nuvens vão
e nada esqueço da magia de os fazer reais


aos quinze anos conheci o amor
e o amei como à beira-mar
ainda hoje sinto-me amar


aos vinte anos já estavas lá
a me dizer tranquila 
espera
o que tem que ser será


entre os vinte e trinta 
e-xas-pe-ra-da-men-te desejei
o caminho do saber
em busca da razão de ser


duvidei do sonho
para viver o instinto 
distanciando o amor e a razão
falsas escolhas que o tempo fez passar


tudo foi sonho 
pois tempo houve de abrir janelas
deixar entrar o ar 
e a verdade 
uma de cada vez 


ah que saudade tenho 
de todos os enganos e todas as certezas
de toda perda e de todo ganho
que afinal me diziam tudo
sem mo revelar


deixo o passado resguardado à sombra
para saber o que de bom me trouxe
e tudo o mais a não reviver


ah que saudade dos meus vinte anos


a velha mangueira ainda está lá
acariciando a lua 
contando estrelas
desse tempo enigma que nunca decifrei




Rio, julho de 2011.




[1] Frase de Fernando Pessoa:
"...Vaga história comezinha
que, pela voz das vozes, era minha...
Quem sou eu? Eles sabem e passaram..." [n.608; 1928]